De fã para fãs: Mondo Cane em Santiago.

Desde dezembro de 2010, quando eu estava presente no suposto último show do Faith No More em Santiago de Chile e vi anunciando nos telões do estádio o concerto de Mondo Cane por aquelas bandas em setembro de 2011, comecei a planejar mentalmente minha volta ao país para poder contemplar tal espetáculo.

Mesmo com os rumores de que Mike marcaria presença com seu projeto em terras brasucas, mas precisamente no Rock In Rio, estava determinada a cruzar as Cordilheiras novamente. Afinal o Rock In Rio é um festival, o espaço aberto poderia prejudicar de certa forma o show (e de fato, isso aconteceu), fora o o tempo de apresentação ser reduzido.

Março de 2011, no primeiro dia de vendas lá estou eu no site passando nervoso,  já que as primeiras fileiras já se encontravam esgotadas. Me lembro que no mapa de assentos vagou um único lugar, na frente, de cara para o gol. Eu mandei e-mail para todos os canais possíveis dizendo que necessitava daquele lugar e pagaria o dobro se preciso (eu já havia comprado um na primeira fileira – lateral direita, era uma primeira fileira, mas era lateral), mas uma pessoa foi mais rápida e conseguiu isso antes de mim. Fiquei frustrada, mas ainda assim feliz. Já que provavelmente no Brasil eu pagaria mais que o dobro do que paguei.

Agora era só contar os dias. De março até setembro foram quase 6 meses de longa espera e ansiedade. Um dia antes peguei minha mala e disse para todos em casa: “Vou para o Chile, Mike me chama.” Dessas loucuras que família nunca entende, mas aceita. E lá fui eu. No dia do show, encontrei com uns amigos chilenos e passei o dia todo fora, quando voltei ao hostel para me arrumar, minha amiga e companheira de aventuras chilenas estava desesperada, sim, eu estava atrasada.

Nunca me arrumei tão rápido para um homem. Trajes a rigor, afinal ao meu ver, Mondo Cane merecia. Quando chegamos no Teatro Caupolicán nos sentimos como ETS. Ninguém estava ‘arrumado’. Só nós. E além disso entramos na fila errada. Na fila conheci pessoalmente Jose, membro do site chileno The Holy Filament, na verdade ele me reconheceu, fico impressionada como Patton me fez conhecer tantas pessoas, mesmo que virtualmente, fora do país. Sou grata por isso.

Como em 2010, a Punto Ticket (empresa que deveria ensinar para as brasileiras como se trata clientes de espetáculos) muito atenciosa, retiramos nossos preciosos ingressos. Ganhamos uma linda lembrança (que pensamos que estavam vendendo e no começo negamos, sabe como é … moramos no Brasil), me separei da minha amiga que estava em outro setor e fui levada até meu lugar. A frustração de estar na fila lateral passou, porque logo que me acomodei me dei conta que meu lugar não era de todo ruim e que o ângulo de visão do palco era perfeito. Mais uma agoniante espera de uma hora até os músicos começarem a entrar no palco. Senti um frio na barriga e uma vontade de sorrir incontrolável. Trevor Dunn aclamado. Nunca pensei ver outros membros do Bungle em um palco. Sério.

Eis que entra, Mike Patton trajado como um mafioso, um canalha latino, e o teatro vem abaixo com tantos gritos. Tanto os de idolatria quanto os histéricos. Me senti emocionada em prestigiá-lo no país que, possivelmente, mais o idolatre.

Il Cielo in Una Stanza começa. Uma das minhas favoritas. Demoro um pouco a digerir, afinal é o primeiro concerto do tipo em que estou presente. Cantei junto, com emoção. Logo depois, Patton pega um arma e atira para o alto e eu surto. Estava anunciada Che Notte. Impressionada com a atuação de Scott Amendola, baterista. O show segue, na mesma sequência do épico de Amsterdã em 2008: Ore d’Amore, a divertida 20 KM al Giorno, a belíssima Quello Che Conta quase me arranca lágrimas. Urlo Negro é o ponto alto da noite, a platéia fica histérica, afinal nesta Mike está mais Patton do que nas demais. Insano. Legata ad un Granello di Sabbia para acalmar e logo em seguida Deep Deep Down, como fã de Morricone e fã do Mike, acho absurdamente sensacional. Pinne, Fucile ed Occhiali e chegamos a um ponto negativo da noite, durante Scalinatella algumas pessoas não tão educadas começaram a gritar e atrapalhar, normal, idiota tem em qualquer canto do mundo. Um “shut the fuck up” seguido de um gesto ‘simpático’ vindos de Patton arrancam aplausos da platéia. Respeito é bom e ele também gosta. L’uomo che non Sapeva Amare, Ma l’Amore no e Canzone. Como cantei em Canzone, talvez minha favorita do projeto, me senti louvando em um culto evangélico, mesmo sem falar italiano. É uma linda canção. Linda mesmo. Ti Offro da Bere e Mike nos oferece um brinde, Dio Come ti Amo e ele se entrega. Na execução desta música pude ver o quanto entregue ele estava no palco. Incrível. Storia d’Amore, a música que me fez gostar deste projeto. E Lontano, Lontano, a qual no final Mike estava em lágrimas. Visível o significado desta música para ele. O Venezia e Yeeeah! me dão um baque, o show está chegando ao fim. Não pode. Eu poderia presenciar aquilo por horas. Senza Fine e todos se retiram do palco, o público aguarda o bis. Todos em pé e de volta ao palco, Mike trajando uma camiseta com o número 1 nas costas, sim, ele é o número 1, pelo menos para mim. Um fã enlouquecido consegue chegar ao palco, mas é impedido pela segurança. Trágico e cômico. A reação e expressão de Patton, é um caso a parte, sempre debochado. Que He Sacado Con Quererte, uma homenagem feita a Violeta Parra, já feita no ano anterior junto ao Faith No More no Teleton chileno e no show em que eu estava, é cantada por todos no teatro. Que voz Mike, que voz. Una Sigaretta e para finalizar Sole E Malato. Chegou ao fim o espetáculo.

Após isso tive outras passagens nesta mesma noite, dignas de O Impostor, que prefiro não comentar.

Eu? Talvez desnorteada. Foi um impacto, pela qualidade dos músicos e espetáculo por si só. Não só Patton mas Willie Winant, Trevor, Matt Rohde, Scott Amendola, Enrico Gabrielli, Enri ‘James Bond’ Zavalloni, as coristas e a Orquestra Sinfonica de Chile me proporcionaram uma  experiência única, uma noite inesquecível que abriu, ainda mais, minha mente para música. Música de qualidade, música feita por prazer e amor.  É assim que enxergo Mike Patton. É por isso que me tornei tão fã dele.

Me sinto priveligiada de ter presenciado isso.

E espero poder presenciar novamente.

Voltei para o Brasil deprimida, normal. Acompanhei o Rock In Rio pela TV, me emocionei outra vez, a Orquetra Sinfônica de Heliópolis foi um diferencial tremendo.

E o que mais me alegra é que, quase dois meses depois, me encontrei com Mike e pude elogiar pessoalmente e diretamente, mesmo com meu inglês precário, e ele me agradeceu sorrindo.

Valeu a pena demais.

 

PS: Esse é um relato pessoal, não tem o propósito de ser uma resenha, mesmo porque não tenho ‘habilidade’ de elaborar uma que fale técnicamente. Esse é um depoimento de fã para fãs.

 

BEIJOCAS.

 

 

 

 

Um pensamento sobre “De fã para fãs: Mondo Cane em Santiago.

  1. Obrigada, Gabriela. Como fã de Mike me sinto meio que na obrigação de te agradecer por esse relato tão sincero, emanando tanto amor, respeito e admiração por ele. Ao ler, fui me emocionando com a tua emoção. Obrigada mesmo!

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