entrevista com kcal gomes

Uma verdadeira procissão dirigiu-se à não é Campinas, é Paulínia no dia 14 de novembro de 2011.
Passaram por verdadeiras provas de resistência, chuva, lama, horas de viagens seguidas por longas caminhadas até o terreiro épico.
O culto era o último da noite, San Patton parece atrair chuva quando vem pra cá. Assim como ocorreu em 2009, produção toda adentrando o púlpito, a fim de secar todos os instrumentos.

Um coro ecoa o mantra faithnomoriano: PORRA, CARALHO!, clamam os fiéis.
Após uma longa demora, e atendendo as preces, o show finalmente começaria.

Eis que surge uma figura misteriosa, envolta em manto pernambucano, de óculos escuro,carregando um livro sagrado e bebida canonizada pelos santos.

Meu nome é Kcal Gomes. sou poeta, agitador cultural e traficante de livros!
Modéstia à parte, venho lá de Pernambuco.
Cunhado não é parente, apurado não é lucro.
Nem tudo que ronca é porra de rock.
Nem todo doido é maluco

PORRA, CARALHO. PORRA, CARALHO!

Quando nasci, um anjo doido me disse ‘viverás no lugar errado pra fazer a coisa certa!”
Cansado de reclamar, porra caralho, juntei livros durante 15 anos e fiz uma biblioteca.
Hoje nós temos um acervo de 20 mil livros – É livro pra caralho!
Atividades com música, poesia, literatura, artesanato e outros nichos.
Apesar de tudo isso, fecharam nossa biblioteca.
Mas eles não sabem que o artista é feito com a mesma matéria-prima do rabo da lagartixa;
Quando voltar para Recife, vou reabrir a biblioteca.

A Arte e a Cultura não podem morrer – puta que o pariu!
O trabalho social é um esporte coletivo; esqueçam de reclamar, o governo não se importa conosco!
Puta que o pariu! –  cada livro é uma carta de alforria, começa com você!

Ele anuncia o Faith no More, e o show épico dura por mais de 1 hora.

O saudosismo por essa noite é inevitável e muitos de vocês devem estar se perguntando até agora: Mas quem é Kcal Gomes? Qual a relação dele com essa seita Faithnomoriana?
As respostas podem estar aqui nessa entrevista que ele nos concedeu.
Façam sinais da cruz, esqueçam de reclamar e tomem nota das sábias palavras de Kcal Gomes.

Kcal Gomes profetiza e também repete o mantra: Muda... Porra, Caralho!

PattonFans: Seu projeto já tem alguns anos, porém muitos do que estavam no SWU Festival tiveram o primeiro contato ali naquela noite. Como foi lidar com aquele público que foi surpreendido com sua mensagem? O que de positivo rolou daquela participação?
Kcal Gomes: Desde adolescente, acredito que a cultura e a arte, através da informação, são capazes de mudar. Sei que o processo é lento, mas tenho certeza que com um pouco de boa vontade, respeito e amor ao próximo é possível.  Na verdade eu já esperava a estranheza de algumas pessoas do público do SWU, pois, a poesia ainda é vista por alguns como uma coisa fútil, mas estou provando que a melhor forma de conseguir algo é se expondo para o mundo sem medo de críticas. Além dos 5 vinhos que eu trouxe do camarim da banda, divulguei minha poesia e meu trabalho social e tive a honra de dividir o palco com pessoas maravilhosas. Nem aqui em Recife fui tão respeitado. Ontem, reabrimos a Livroteca graças a um contato que fizemos depois do SWU.

PattonFans: O festival SWU tem como mote a sustentabilidade e muitos projetos sociais estavam ali presentes (como o Instituto Baccarelli, com o Coral da gente que também se apresentou com Faith no More). Você teve tempo de conhecer os outros projetos? Em que eventos como esse ajudam a projetos como o seu?
Kcal Gomes: Sim, visitei junto com a banda o Instituto Baccarelli e fiquei impressionado com a estrutura do projeto. Quando eu crescer, quero ser como eles.
Eventos como o SWU ajudam a conscientizar pessoas e integrar projetos sociais. Pena que são poucos eventos desse tipo.

PattonFans: Em a “Mão e a Luva”, você diz que suas paixões são a poesia e a música. Você já conhecia a banda Faith no More? A interação entre você e a banda, principalmente com o vocalista, foi de quem já se conhecia há anos…
Kcal Gomes: Eu já conhecia a banda. Inclusive tenho um vinil deles que troquei ainda adolescente por um livro de auto-ajuda. Foi uma das melhores trocas da minha vida, pois esse tipo de livro ajuda apenas as editoras.

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PattonFans: Ainda sobre a apresentação, a poesia que você leu  com Mike (Patton, vocalista da banda Faith no More) falava sobre mudanças. Você acredita que o país está se encontrando e respeitando mais a leitura?
Kcal Gomes:  Sim… Através dos artistas, surgimento de bibliotecas populares e das redes sócias as pessoas estão, aos poucos ficando menos egoístas e preconceituosas. Estamos à beira de uma revolução popular.

PattonFans: Houve alguma participação dos integrantes da banda na escolha da mensagem lida?
Kcal Gomes: Não. Assim que mostrei o poema “Muda” para Mike, ele aprovou de cara. Em seguida, perguntei se ele queria dividir comigo. O doido topou! Isso há algumas horas antes do show. Depois, na van a caminho do show tive a ideia de entrar no palco como um traficante, com a bandeira de Pernambuco no rosto. Então, o Mike chamou o empresário e decidiram que eu iria abrir o show da banda. Tive que tomar duas garrafas de vinho para encarar a responsabilidade de abrir o show de uma banda histórica e para quase cem mil pessoas.

Kcal Gomes e as crianças, na Livroteca

PattonFans: O artista é feito da mesma matéria-prima do rabo da lagartixa…” a renovação, o processo de regeneração é algo que somente a arte proporciona. E voltamos as “mudanças”.  Quais as soluções que a arte pode oferecer a uma comunidade?
Kcal Gomes: “A arte tem o poder de enfurecer os seres e torná-los em monstros incontroláveis.” A sociedade e o governo ainda veem as comunidades de baixa renda como miseráveis. Eu vejo um celeiro de artistas. Tem um trecho de um poema meu que relata isso.

Todo miserável tem um dom;
o seu, talvez seja bom.
Todo mercenário tem um carma.
Não sei! Quanto vale uma alma?

Faith no More e Kcal Gomes, no Instituto Baccarelli

PattonFans: Muitas pequenas livrotecas foram abertas pelas favelas do país, mas parece que ainda há muita burocracia para que idéias importantes e construtivas à sociedade sigam.  Você falou sobre o fechamento da Livroteca. Ela já foi reaberta?  Quais os principais problemas que projetos como esse sofrem para se manterem vivos?
Kcal Gomes: Fiz na minha cidade uma coisa que em mais de 500 anos o governo não fez, por isso eles tentam, em vão, fechar um espaço de informação popular que é uma ameaça, pois um povo informado, não aceita ser lesado. Reabrimos a Livroteca pela terceira vez em 17 anos! Nossa maior dificuldade é a falta de voluntários e colaboradores que acreditem que o trabalho social é um esporte coletivo.

PattonFans:  “Às vezes me pergunto o que leva uma pessoa miserável juntar dinheiro para comprar livros para emprestar e até hoje não recebi resposta (…)”   você cita isso no documentário [“A Mão e a Luva”].  Alguma resposta já surgiu?
Kcal Gomes: Ainda estou esperando a resposta, mas prefiro fazer parte da história do que ser um mero telespectador.

PattonFans: E você e a livroteca possuem algum site ?
Kcal Gomes: Nosso site está em construção.
[O blog conta com apóio do PattonFans, co-criação de Cleide Farias e arte de Carolina Terehoff Merino. Está se estruturando, mas já pode ser acessado: http://otraficantedelivros.blogspot.com]

Kcal Gomes: "Nossa maior dificuldade é a falta de voluntários e colaboradores que acreditem que o trabalho social é um esporte coletivo."

PattonFans: E quais os próximos passos nessa jornada pelo encontro da luva?
Kcal Gomes: A luva eu já encontrei! Só falta engordar um pouco para ela caber na minha mão. “O dinheiro não traz felicidade, mas, é impossível ser feliz com a barriga vazia.”

PattonFans: E quem estiver interessado em colaborar com o projeto, pode fazê-lo como?
Kcal Gomes: Aceitamos doações de livros, brinquedos, material escolar, material de escritório ou qualquer quantia para aluguel, água, luz etc. Os interessados devem enviar e-mail para: livrotecab@gmail.com.
E como bem disse Kcal no final dessa entrevista, “Hasta la victória!”


Agradecimentos: ao Kcal por ter topado a entrevista, e as também adeptas Cleide Farias, pela tradução em espanhol, Renata Diegues e Alline Katyuza por ajudarem na revisão da tradução em inglês.


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Links relacionados:

  Download do Áudio do Show no SWU, em 2011

Assista na íntegra o documentário sobre Kcal Gomes, “A Mão e a Luva”, dirigido por Roberto Orazi, e conheça um pouco da sua história.

Fotos do Show em SWU.

Assista a esse show (e outros) no canal Pattonism, no Vímeo.

7 pensamentos sobre “entrevista com kcal gomes

  1. Muito legal mesmo!
    Adorei saber sobre a experiência dele com a banda e mais sobre o trabalho, precisamos de mais pessoas como ele nesse Brasil🙂

  2. Pô, muito bacana a entrevista, fiquei com muita vontade de conhecer a livroteca, vou aproveitar que estou de mudança e ver se consigo doar alguns dos meus livros infantis e brinquedos.
    Ótima entrevista!

  3. Pingback: [Entrevista] Kcal Gomes « PATTONISM

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