Entrevista Completa – Mike Patton – Revista Veja 1991

VEJA ENTREVISTA: MIKE PATTON 1991

VEJA, 2 DE OUTUBRO, 1991

Sting é ridículo

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O líder do Faith No More, ídolo dos jovens do país, diz que roqueiros não devem se meter em ecologia e se declara admirador de Rosane Collor

JOÃO GABRIEL DE LIMA

O desembarcar no Brasil para o Rock in Rio Il em janeiro deste ano, os músicos da banda de rock americana Faith No More não esperavam ser mais do que meros coadjuvantes do festival. Agraciada com um cachê de 20 000 dólares, o menor entre as atrações internacionais, a banda sabia que,diante de estrelas do porte de Prince e George Michael, corria o risco de ser ofuscada como um simples asteróide. Depois de protagonizar o melhor e mais vibrante show do festival, no entanto, o Faith No More decolou para urna carreira fulminante na qual deixou de ser mais uma banda de garagem de San Francisco para se tornar uma das mais sérias candidatas a brilhar no firmamento da música pop dos anos 90. A apresentação no Rock in Rio II repercutiu no exterior, consolidou o grupo entre os fãs de rock pesado e teve um efeito colateral: transformou o cantor e líder da banda. MikePatton, de 23 anos, em ídolo no Brasil.principalmente entre as meninas na faixados 14 aos 18 anos que outrora cultuavam o Menudo. Para conferir sua popularidade no país.onde venderam 175 000 cópias de seus dois últimos LPs, The Real Thing e Live outhe Brixton Academy, Patton e o Faith NoMore percorreram o Brasil durante as últimas três semanas a bordo de uma tumê por nove cidades, com teatros invariavelmente lotados.  Assombraram o público e ficaram assombrados com o que viram. Patton. que passeia sem ser reconhecido nos Estados Unidos e na Europa, não teve sossego nem no saguão do hotel. Sua presença era a senha para que dezenas de tietes se amontoassem a sua volta, gritando de emoção diante do ídolo. Empolgado com os quinze minutos de glória que viveu no Brasil, Patton tocou tamborim no Salgueiro, tentou pescar piranhas na Amazônia, fez questão de conferir a fama de Cubatão como inferno ecológico, deliciou-se com moqueca e feijoada e, num canto a salvo das fãs, nos intervalos do ensaio para um dos shows finais da turnê, recebeu VEJA para a seguinte entrevista:

VEJA — O Faith No More faz muitosucesso no Brasil. principalmente entre adolescentes. Como você recebe o assédio dos fãs?

PATTON — A sensação é de um animal no zoológico. Não estou acostumado com isso, já que só sou admirado assim no Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa,andamos na rua e nada acontece. Aqui as garotas gritam, choram, reagem como se fôssemos os Beatles.Sempre que venho aqui, e esta é a segunda vez — a primeira foi no Rock in Rio II , tenho a impressão de que sou uma atração da Disneylândia.

VEJA — Como você explica tanta popularidade entre os brasileiros?

PATTON — Acho que o público funciona de maneira meio diferente. Bandas como os Bee Gees, que ninguém mais ouve em nenhum país do mundo. ainda fazem sucesso no Brasil. Acho que aqui deve ser mesmo um bom lugar para um roqueiro morar. NosEstados Unidos, os grupos fazem sucesso por pouco tempo e depois ninguém mais se lembra deles. No Brasil, pelo que pude notar, as pessoas, quando gostam de um grupo, o ouvem a vida inteira.

VEJA — Durante sua turnê pelo país você ouviu algo de música brasileira?Algo o agradou?

PATTON — Fui à Escola de Samba do Salgueiro e gostei. Toquei tamborim no meio da bateria da escola, mas toquei tão mal que me senti como um americano estúpido tentando fazer o que não sabe. Se eu fosse o Paul Simon diria “olhem para mim” e tentaria chamar atenção dos fotógrafos. Como não sou o Paul Simon, fiquei apenas deslocado.

VEJA — Por falar em Paul Simon,incluiu  no seu último LP. músicas do grupo brasileiro Olodum. O que você achou da idéia?

PATTON — Acho o Paul Simon pretensioso. Quando ele faz coisas como essa, fica parecendo que os grupos que inclui em seus discos são bons apenas porque mereceram o toque de sua varinha de condão.

VEJA – Se você morasse no Brasil.qual cidade escolheria?

PATTON – Acho que São Paulo é a melhor cidade. O Rio de Janeiro é muito caro e é também muito parecido com Los Angeles, que é uma cidade muito exagerada. onde as pessoas fazem tudo para aparecer. São Paulo é um lugar mais frio, se parece mais com Nova York.

VEJA – Hoje é moda entre os roqueiros de sucesso defender causas nobres. Porque você não faz isso?

PATTON – O problema é que só se defende causas das quais ninguém discorda. É claro que isso é feito para vender. O rock é antes de tudo um grande negócio, e sempre foi assim, desde os tempos de Woodstock. Nos intervalos entre um show e outro, fizemos questão de conhecer Cubatão. É espantoso. Você não consegue ver o céu. E muito louco. Mas mesmo assim achamos que não é papel do rock despertar a consciência das pessoas para problemas como esse.

VEJA – Vocês nunca pensaram em adotar uma boa causa também?

PATTON — Ainda não estamos desesperados o suficiente para tentar esse recurso. Quando as pessoas pararem de comprar os nossos discos, inventaremos uma.

VEJA – Nem todos os roqueiros pensam assim. O Sting, por exemplo, defende a Amazônia e os índios através da música.

PATTON — Detesto o Sting. Acho ridículo essa coisa de ele ter adotado um índio. Se eu fosse brasileiro ficaria com raiva dele. Exibir uma pessoa como se fosse um animal de estimação é algo que não se faz com seres humanos, mas com macacos.

VEJA – O cantor brasileiro João Gordo, líder do conjunto Ratos de Porão, diz que antes de fazer sucesso tinha muita dificuldade em arranjar namorada e isso mudou depois que adquiriu notoriedade. Aconteceu o mesmo com você?

PATTON — Comigo aconteceu o contrário. Hoje, arranjar namorada é duas vezes mais difícil. Ter uma banda só atrapalha.O fato de as mulheres serem mais acessíveis não significa que você irá encontrar alguém que goste realmente de você. Tanto que estou solteiro atualmente.

VEJA – Se o sucesso não é sinônimo de belas mulheres, qual a melhor coisa que ele traz?

PATTON – A melhor coisa é que você entra num avião, voa quinze horas, chega caindo aos pedaços num lugar distante, salta todo quebrado no aeroporto e as pessoas ainda te acham o máximo.

VEJA – Slash, guitarrista do Guns n’Roses, cria cobras no quintal de sua casa.Você tem algum animal doméstico?

PATTON — Não tenho ainda, mas fique ifascinado pelos macacos da Amazônia. Eles são muito inteligentes. Você pode treinar um macaco para fazer coisas engraçadas, como bater a carteira dos outros, por exemplo. Acredito até que, se treinados, eles poderiam atender o telefone  para você, preparar comida ou fazer outras coisas úteis.

VEJA – O que vocês acharam da Amazônia?

PATTON — Nos Estados Unidos circulam muitas lendas sobre a Amazônia. As pessoas dizem que está quase tudo destruído, e nós pensamos que iríamos encontrar apenas uma floresta queimada, tratores e coisas do gênero. Chegamos lá e não era nada disso. Nos disseram que apenas 1,9% da floresta havia sido destruída. Não me parece um problema tão grave assim.

VEJA – Vocês participaram, no Amazonas, de uma pescaria de piranhas. Quem os ensinou a apanhar o peixe?

PATTON — Fomos à pescaria, mas ninguém nos ensinou nada, ficamos morrendo de medo. O motorista do carro nos disse que era só jogar um pedaço de carne na água e esperar. mas não deu certo. Provavelmente ele quis se divertir ao perceber que éramos americanos. A turma do barco chegou a fisgar algumas, mas nós, do grupo, não pescamos nada.

VEJA – Que lugares você visitou no Brasil e que o agradaram?

PATTON — Fui a um terreiro de macumba onde baixou o espírito de alguém que me disseram ser um tal de Preto Velho. Ele falou através de uma mulher. Disse que eu precisava ser purificado e que se rezasse para os espíritos me tomaria mais famoso ainda. Preto Velho sabia que eu era cantor e me aconselhou a lavar a garganta todos os dias com água e sal. Não fiz isso ainda, mas seguirei fielmente suas instruções, caso contrário pode baixar em mim algum mau espírito e atrapalhar os shows.

VEJA – Hoje se vive, dentro da música pop. a era do sampler — com a modernização tecnológica, as bandas se dedicam a copiar umas às outras. Você não acha que isso pode acabar com o rock, fazendo com que daqui a dez anos todas as bandas sejam fraudes como o Milli Vanilli?

PATTON — Acho o sampler uma coisa interessante, em princípio. Em pouco tempo, pode ser que as bandas nem subam no palco para fazer shows. Talvez o sampler acabe mesmo por destruir o rock. Mas a destruição do rock pode ser também uma coisa boa. Se a música que se faz hoje, que é muito ruim, acabar, talvez surja algo melhor. Após esse holocausto, apenas algumas bandas iriam sobreviver. Ficariam apenas os melhores conjuntos.

VEJA – O Faith No More sobreviveria?

PATTON — Não sei. Vamos ter que caprichar no próximo disco.

VEJA – Se o rock acabar, onde você irá procurar emprego?

PATTON — Gostaria de trabalhar em cinema, como diretor ou roteirista.

VEJA – Como fã de cinema, quais os seus atores prediletos?

PATTON — Gosto muito da Divine.

VEJA – Mas ela é um travesti.

PATTON — Apenas coincidência.

VEJA – Você gosta de Arnold Schwarzenegger?

PATTON — Eu detestava seus filmes, mas de uns tempos para cá comecei a achá-lo smuito engraçados. Schwarzenegger é ridículo demais.

VEJA – Vocês são considerados a banda mais mal vestida da história do rock. Grupos como o Poison, que não toca tão bem, fazem sucesso porque se vestem de maneira sofisticada. Por que vocês não fazem como eles?

PATTON — O Poison é um fenômeno tipicamente americano, já que em nosso país as pessoas se guiam muito pelas aparências. Se tivermos que mudar nosso guarda-roupa para fazer sucesso, será algo radical. Buscaremos inspiração no filme O Mágico de Oz: um será o leão, o outro  o homem de lata e assim por diante. Nosso tecladista, que é loiro, poderá fazer as vezes de Dorothy. Mesmo assim não iria dar certo. Somos muito feios para parecer bonitinhos. Já tentamos pentear o cabelo para cima para ver se melhorávamos o visual. Não deu certo.

VEJA – Nos anos 60, costumava-se dizer que nenhum pai deixaria sua filha namorar um Rolling Stone. Se você tivesse uma filha adolescente, o que faria se ela chegasse em casa e dissesse que estava namorando o Mike Patim??

PATTON – Para que isso não acontecesse, orientaria minha filha desde cedo para sair apenas com mulheres. Acho que crianças podem servir de cobaias para experiências insólitas. Meu sonho sempre foi ter um laboratório para testar crianças. Agora, falando sério: a maioria dos pais já faz isso superprotegendo seus filhos.Um dia, eles saem de casa sem conhecer o mundo lá fora e uma tragédia pode acontecer, ou então algo de muito bom,depende do caso. Na verdade, todas as crianças são cobaias dos pais, porque nenhum deles sabe exatamente como criá-las e faz experiências com elas. Por isso não quero ter filhos.

VEJA – Max Cavalera, o vocalista doSepultura, disse certa vez que se encontrasse na rua algum dos integrantes do New Kids on the Block daria uma surra nele, para que se tornasse mais viril.Você faria o mesmo?

PATTON – Não. Eu me  ajoelharia no chão e beijaria os seus pés só para ver a cara que ele faria.

VEJA – O que você fazia em San Francisco antes de se tornar um cantor de rock?

PATTON — Eu trabalhava numa loja de discos. Ganhava apenas o suficiente para pagar o seguro de um carro velho.

VEJA – Que tipo de música você apreciava nessa época?

PATTON — Gostava de rock em geral,mas quando entrei na loja comecei a gostar de tudo. Meu ídolo era o Elton John.

VEJA – Você era um bom aluno na escola?

PATTON — Sim, eu levava as coisas a sério. No primário e no ginásio tinha poucos amigos porque sempre me preocupava em estudar e tirar notas boas. Cheguei até o segundo ano de Literatura na universidade.

VEJA – O que você pretendia com esse curso? Tornar-se um escritor?

PATTON — A maioria dos meus colegas que faziam Literatura pretendia se tomar professor, mas eu não. Queria ser escritor.fazia contos na época, mas é difícil viver dessa profissão. Ganhar dinheiro com rock é muito mais fácil.

VEJA – O que seus pais aconselharam quando você disse em casa que iria largar os estudos para se tornar  de rock?

PATTON — Não disse nada a eles. No início eles começaram a colecionar toda sas revistas em que a minha foto aparecia. Achei muito chato e disse para eles pararem com isso.

VEJA – Astros do rock pesado, como o Guns nRoses, têm fama de consumir álcool e drogas. A fama se justifica no seu caso?

PATTON — Estou fora das drogas, não gosto muito de bebidas alcoólicas e minha nova paixão é o guaraná. É uma ótima alternativa à Coca-Cola, que já corre em minhas veias há muito tempo.

VEJA – Como é seu dia-a-dia nos Estados Unidos?

PATTON – Eu costumo acordar por volta do meio-dia. Moro numa casa de dois quartos com o guitarrista do Faith No More e mais um músico de minha outra banda, o Mr. Bungle. Não é uma mansão, é uma daquelas casas geminadas que têm uma garagem, onde amontoamos todos os instrumentos e equipamentos de som. Na verdade, trata-se de uma pocilga. Quando dá tempo, gosto de nadar e fazer musculação. Mas não tenha uma sala com aparelhos. como Madonna. Para mim, uma barra já é suficiente.

VEJA – Agora que vocês estão ficando ricos e se tornando pop stars, não pretendem se mudar para uma mansão em Los Angeles?

PATTON — Não tenho dinheiro suficiente ainda. O que tenho deposito no banco. Por enquanto, ganho tanto quanto qualquer profissional de classe média. As meninas que ficam nos assediando no Brasil pensam que sou como o Bon Jovi, acham que tenho um milhão de garotas,carros do ano, mas nada disso é verdade. Acho que bandas como o Bon Jovi e o Whitesnake se sentem inseguras sobre elas mesmas e procuram fazer pose, cultivando a imagem de milionários. Nós não ligamos para essas coisas.

VEJA – Quando você ficar milionário com a música, o que pretende fazer?

PATTON — Gostaria de ter um programa de televisão como o Aqui Agora, que vi no Brasil. Como não tem nada parecido nos Estados Unidos, é fascinante para um americano ver essas coisas. Gosto muito também do jornal O Povo. Nos Estados Unidos há imprensa sensacionalista, programas ruins, mas estes estão um degrau abaixo, o que os torna mais interessantes ainda. Lá, as pessoas não mostram a morte de uma maneira tão explícita.

VEJA – Se você tivesse um programa como o Aqui Agora, quem você convidaria para entrevistar na estréia?

PATTON — A dona Rosane Collor. Tenho uma grande admiração por ela desde que vi sua foto estampada na capa de uma revista. Ela estava chorando. Acho que chorar é a melhor forma de fazer política.

VEJA – Você faria uma música para ela?

PATTON — Não sei, mas em alguns de meus shows no Brasil dediquei músicas para dona Rosane. Ninguém comentou isso até agora. Acho que é porque fiz as dedicatórias em inglês e as pessoas não entenderam.

VEJA, 2 DE OUTUBRO, 1991

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